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Ato I: Carne e Asfalto
Há um tipo de febre que só o asfalto quente sabe curar. No meio do barulho, da fumaça barata e do suor alheio, eu existia por inteiro. Cada gole era pressa; cada corpo, um farol contra a noite. Eu não sabia, mas aquele era o último lugar onde meu sangue ainda corria quente.
Ato II: Entre Postes e Névoa
A subida é silenciosa. À medida que a cidade lá embaixo se transforma em um emaranhado de luzes distantes, o ar fica mais fino, mais frio. As vozes do asfalto já não me alcançam. Há um nevoeiro que desce da serra, engolindo os postes um a um, e me pergunto se o que deixei para trás era real ou apenas fumaça.
Ato III: A Gaiola de Vidro
O luxo é um isolante acústico perfeito. Aqui dentro, por trás dessas imensas paredes de vidro, nada entra. Nem o barulho, nem o calor, nem o vento. Mas também sinto que nada sai. Minhas palavras batem no reflexo e voltam secas. Estou no topo do mundo, trancado em uma gaiola impecável, e posso ouvir o som da minha própria mente sendo esvaziada.
Ato IV: O Cinza Absoluto
Não sobrou nada para queimar. O fogo apagou, as cinzas esfriaram, e o cinza cobriu os olhos, a boca, as mãos. Não sinto raiva, não sinto medo, não sinto o frio. Sou apenas o chiado entre as frequências, uma página em branco que se recusa a ser escrita. O vazio venceu.