O Príncipe e o Meu Cavalo Próprio
A pergunta me pega de surpresa,
não tem mais açúcar nenhum.
Vem áspera, enferrujada,
um gosto ruim que fica na língua.
A carruagem sempre chega atrasada. Sempre.
Era pra ser alívio, eu sei.
O ponto alto da história.
O tal do final feliz que me prometeram
quando eu ainda acreditava nessas coisas.
Mas hoje o resgate soa errado,
quase um crime pequeno.
A armadura brilha demais,
o cavalo para, como se soubesse.
Fiquei anos naquela torre.
Anos mesmo.
Frio, silêncio, o tempo escorrendo pelas paredes.
Pedi chave, pedi sinal, pedi um beijo qualquer
que abrisse a porta.
Esperei o herói como quem espera chuva
num céu que não muda.
Só que o corpo cansa.
E a espera apodrece por dentro.
Um dia eu levantei.
Com medo, com raiva, com as mãos tremendo.
Fui a corda mal feita,
o nó errado,
o risco que ninguém aprovaria.
Desci sem permissão, sem roteiro, sem nada.
A liberdade não foi bonita.
Não veio limpa.
Veio grande demais, rangendo,
quase me esmagando sob o peso.
O mapa não ajudava —
ele dobrava, rasgava, mentia um pouco.
Destino final nunca esteve escrito ali.
Comecei a construir meu castelo do jeito que deu.
Torto, inacabado, meu.
No meu tempo.
Com ferramentas que machucam a mão.
E aí, claro, o mundo resolve rir:
o Príncipe aparece.
Como sempre aparece quando já é tarde.
Ele estende a mão, sabe o gesto de cor.
Oferece o sonho que eu pedi um dia.
Mas é só o fim da história,
não o caminho.
Não os erros, não a estrada confusa
que eu atravessei sozinho.
Desculpa, Majestade.
Sua montaria é linda, eu sei.
Mas meu cavalo sangra, sua crina é suor e poeira.
Ele corre contra a fábula.
E eu também.
Não quero ser salvo.
Não agora.
Vou só.
-Carlos Pontes