Solidão com Febre
Hoje meu corpo acordou antes de mim.
isso acontece às vezes —
uma eletricidade burra correndo nas pernas,
na boca,
até no jeito de segurar a caneca de café
como se eu estivesse escondendo alguma coisa quente demais.
Passei o dia inteiro distraído com pele.
a minha,
a dos outros,
a ideia da dos outros.
No mercado, uma pessoa encostou sem querer no meu braço
e foi ridículo o estrago que isso fez.
Eu fiquei lembrando depois.
o resto da tarde inteira.
como quem volta numa cena de acidente
pra conferir se realmente viu aquilo.
Tem dias em que eu entro dentro de mim
feito água fria.
Hoje não.
Hoje eu me habitei como incêndio.
E não é bonito do jeito que as músicas fingem que é.
Desejo de verdade tem alguma coisa de animal cansado,
de dente apertado,
de unha contra madeira.
Tem suor antes mesmo do toque.
Tem culpa às vezes.
Tem uma arrogância meio triste de achar
que alguém vai olhar pra você
e esquecer do resto da sala.
Eu queria dizer que é só tesão
mas não é.
nunca é só isso.
Porque junto vem essa vontade quase infantil
de ser escolhido.
de ser o rosto que faz alguém perder a linha por um segundo.
A garganta seca.
A coragem indo embora na mesma velocidade que chega.
Hoje eu me senti perigosamente confortável na própria pele.
e isso me assustou um pouco.
Como se eu pudesse entrar em qualquer lugar
e deixar alguma coisa fora do eixo
só pelo jeito de olhar demorado demais,
de rir perto,
de tocar sem urgência.
Eu percebi pessoas percebendo.
é horrível admitir isso em voz alta.
parece vaidade.
talvez seja.
Mas tinha alguma coisa viva em mim hoje,
alguma coisa acesa até demais,
feito poste piscando na rua de madrugada
atraindo insetos e bêbados.
E eu gostei.
Gostei da tensão pequena antes do toque.
do silêncio ficando pesado.
da sensação de que meu corpo sabia coisas
que minha cabeça ainda tava tentando acompanhar.
Só que no meio disso tudo
bate uma tristeza estranha também.
Porque eu nunca sei
se quero realmente o outro
ou só aquele instante exato
em que alguém me olha
como se eu fosse impossível de ignorar.
Talvez seja solidão com febre.
Talvez seja só a noite entrando em mim outra vez.
- Carlos Pontes