top of page

A zona cinzenta

Tenho vivido nesse cinza há tempo demais,
nem claro, nem escuro, só cansa.
Entre o que chamam de bem
e o que dizem ser mal,
a sombra senta ao meu lado
como se fosse normal.​

É um meio do caminho que nunca leva a lugar nenhum,
um descanso falso.
Entre a paz que prometem
e a guerra que eu carrego no peito,
vou me gastando aos poucos
sem perceber quando começou.​

O mapa mente.
A bússola gira, gira, e não aponta pra nada.
O certo escorre pelos dedos,
o errado também,
e eu fico olhando a mão vazia
tentando lembrar no que acreditar.​

Sou essa travessia mal feita,
um pé no sagrado, outro na lama.
Nem santo, nem profano,
só preso nesse espaço apertado
entre o que pode
e o que nunca devia.​

Tem dias que dói mais.
Outros dias só dá raiva.
Os sonhos vão ficando pra trás,
não porque morreram,
mas porque cansei de carregá-los sozinho.​

Olhei pro futuro achando que ia clarear.
Juro que achei.
Abracei a ideia com tudo que ainda restava em mim,
achei que agora sim,
ia ser diferente.​

Mas não foi.
O cinza ficou.
E às vezes acho que ele sou eu mesmo,
ou eu que virei isso, sei lá.

- Carlos Pontes
 

bottom of page