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Metamorfose do Toque

Produto Descartável                 x                     Obra Rara

Havia um jeito específico
de você pousar os olhos sobre mim.

​

​

Não era encontro.

​

​

Era inspeção.

​

​

Como se meu corpo
já tivesse perdido o direito
de ser chamado de corpo.

​

​

Eu era rendimento.

​

​

Você media meus silêncios
como quem calcula desperdício.

​

​

Pesava minhas cicatrizes
com a serenidade profissional
de quem sabe exatamente
quanto ainda pode retirar
sem matar o animal.

​

​

E o mais cruel:

eu chamava aquilo
de desejo.

​

​

Porque a fome,
quando aprende a sorrir,
imita o amor
com uma perfeição assustadora.

​

​

Você decorou meus pontos de ruptura.

​

​

Nunca para protegê-los.

​

​

Para alcançá-los
sem errar.

​

​

Havia uma faca invisível
dentro de cada carinho.

​

​

Ela nunca aparecia.

Só o corte.

​

​

Você me beijava
como quem experimenta.

​

​

A cabeça levemente inclinada.

​

​

Os olhos atentos.

​

​

Quase científicos.

​

​

À procura da textura,
da temperatura,
do ponto ideal
em que alguém deixa de ser pessoa
e se transforma
em utilidade.

​

​

Durante um tempo,
vivi da ilusão
de ser indispensável.

​

​

Depois descobri
que ninguém é indispensável

para quem sente fome.

​

​

Só substituível.

​

​

Você não queria minha presença.

​

​

Queria o efeito químico
que eu provocava
no vazio que morava em você.

​

​

Eu era analgésico.

​

​

Nunca cura.

​

​

Quando o alívio passava,
você aumentava a dose.

​

​

Nunca o amor.

​

​

Até que um dia
você terminou de me consumir.

​

​

Não houve última conversa.

​

​

Nem adeus.

​

​

Os predadores
não fazem cerimônia
com os ossos.

​

​

Passei por você
como uma embalagem
que ainda guarda o formato
do que um dia conteve.

​

​

Você nem diminuiu o passo.

​

​

Seus olhos
já procuravam outra vitrine.

​

​

Outra carne
ainda convencida
de que estava sendo vista.

​

​

Foi então que entendi.

​

​

Você nunca soube olhar pessoas.

​

​

Só cortes.

​

​

E eu passei anos
agradecendo
por ser
o seu favorito.

​

​

Você nunca chegou
como quem procura possuir.

​

​

Chegou
como chegam as manhãs
que não precisam convencer a janela
a deixá-las entrar.

​

​

Antes de tocar minha pele,
você aprendeu
o desenho da minha voz.

​

​

Escutava
como se cada palavra
trouxesse escondido
um mapa daquilo
que eu ainda não sabia dizer.

​

​

Havia uma delicadeza estranha
no modo como seus olhos
demoravam em mim.

​

​

Não procurando defeitos.

​

​

Nem promessas.

​

​

Mas permanências.

​

​

Você observava
o pequeno intervalo
entre uma respiração e outra,
o jeito que minhas mãos
hesitavam antes de encontrar as suas,
a sombra que um pensamento difícil
deixava atravessando meu rosto.

​

​

E nunca interrompia.

​

​

Como quem sabe
que certas flores
abrem apenas
quando ninguém lhes pede pressa.

​

​

Foi então que descobri
que também existe desejo
na contemplação.

​

​

Existe desejo
em dividir o silêncio
sem a obrigação
de preenchê-lo.

​

​

Em ler
enquanto o outro lê.

​

​

Em preparar café
para duas manhãs
que ainda nem decidiram
o que serão.

​

​

Em respirar
no mesmo ritmo,
até que o tempo,
cansado de correr,
esqueça de existir.

​

​

Com você,
as horas desaprendiam
a urgência.

​

​

Cada instante
era largo o suficiente
para caber inteiro
dentro de si.

​

​

E quando nossas quatro paredes
fechavam o mundo do lado de fora,

não havia conquista.

​

​

Havia rito.

​

​

Você aproximava as mãos
como quem se aproxima
de uma chama antiga:
não para dominá-la,
mas para aprender
a luz que ela oferece.

​

​

Cada gesto
perguntava
antes de acontecer.

​

​

Cada silêncio
esperava
pela resposta do meu corpo.

​

​

Nunca houve invasão.

​

​

Só portas
abertas por dentro.

​

​

Despir-me,
diante de você,
não parecia perder uma proteção.

​

​

Parecia retirar,
uma a uma,
as poeiras acumuladas
sobre uma imagem sagrada
que sempre esteve ali,
esperando apenas
alguém capaz
de enxergá-la.

​

​

Seus dedos
não procuravam levar.

​

​

Procuravam deixar.

​

​

Calma.

​

​

Abrigo.

​

​

Confiança.

​

​

Como quem deposita flores
sobre um altar
sabendo
que nenhuma delas
lhe pertence.

​

​

Naquela noite,
compreendi uma verdade
que nenhum beijo
seria capaz de explicar:

há amores
que acendem o corpo.

​

​

E há amores
que devolvem
o corpo
à própria alma.

​

​

Você foi o primeiro
a me fazer sentir
que existir,
inteiramente existir,
já era,
por si só,

algo digno
de reverência.

- Carlos Pontes.

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