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Duas Portas, Nenhum Lar

Eu moro em duas casas

e nenhuma tem meu nome na campainha.

 

Numa, tiro os sapatos na porta,

lavo as mãos por tempo demais,

aprendi a dizer “obrigado”

como quem pede desculpa por existir.

A mesa é clara.

O amor também, mas dói nos olhos.

Na outra, eu entro sujo mesmo,

trazendo a rua nos dentes,

o cheiro doce do erro

— barato, imediato —

e deixo a louça quebrar sozinha.

Aqui, ninguém pergunta por amanhã.

Sou eu que corro entre elas,

com a chave errada, sempre.

Às vezes confundo as portas

e levo o desejo para a sala branca

(ele senta torto, mancha o sofá).

Outras vezes levo a oração

para o quarto escuro

e ela não acende nada.

Me chamam de morador,

mas eu me sinto hóspede do próprio corpo.

O espelho da casa limpa me acusa:

por que você quer tanto?

O chão da casa suja me ri:

por que você pensa demais?

Eu queria ser inteiro,

mas acordo em pedaços.

Um pede ordem,

outro pede fogo,

e eu, no meio,

com uma culpa pequena, insistente,

como pedra no sapato —

não me deixa correr nem parar.

Já tentei trancar uma das casas.

Foi quando a outra começou a gritar.

As paredes aprenderam meu nome

e chamaram alto,

de madrugada,

quando até a razão cochila.

Tem dias que o divino em mim

boceja de tédio,

sente falta do suor,

do erro dito sem ensaio.

Tem noites que o animal chora baixo,

quer sentido,

um colo que não desapareça depois.

Talvez não seja derrubar muros,

talvez seja abrir uma janela torta,

deixar o vento misturar

o incenso com a cerveja,

a prece com a carne.

Não sei.

Eu só sei que continuo indo e voltando,

com as mãos cheias de falhas,

e essa pergunta me seguindo pela rua:

e se viver for isso mesmo,

não escolher uma casa,

mas aprender a sentar no chão

entre as duas,

sem fugir de mim?

-Carlos Pontes

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