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Xadrez Emocional

Sexta-feira à noite sempre teve o mesmo cheiro: perfume caro tentando encobrir o cansaço de sobreviver emocionalmente numa cidade que transforma afeto em estratégia. Eu borrifo duas vezes no pescoço. Uma no pulso. O ritual nunca foi sobre sedução. É armadura.

Abro o guarda-roupa como quem consulta um oráculo cansado. Preto demais parece defesa. Claro demais parece esperança. No fim, escolho algo que pareça indiferente, embora nada em mim esteja realmente indiferente. Os anéis deslizam pelos dedos como pequenas coroas metálicas. Sinais silenciosos de alguém que aprendeu a não chegar desprotegido aos lugares.

Lá fora, a cidade pulsa naquele ritmo indecente de sexta-feira. Gente rindo em mesas de bar como se nunca tivesse sido destruída por ninguém. Casais atravessando semáforos de mãos dadas como quem nasceu sem precisar calcular risco. E talvez tenham nascido mesmo. Talvez exista gente que ama sem criar rotas de fuga, sem ensaiar abandono antes do primeiro beijo, sem transformar mensagens em perícia criminal.

Essa é a parte que revolta.

O esforço.

O fato de que, para alguns de nós, sentir virou um exercício militar. Você aprende a ler silêncios, pausas, mudanças mínimas de tom. Aprende que certas pessoas entram na sua vida já posicionando peças num tabuleiro invisível. Um jogo elegante de manipulação emocional onde vence quem demonstra menos necessidade. Quem responde depois. Quem finge desapego melhor.

Patético.

Adultos cansados blefando carência como jogadores profissionais segurando cartas ruins com expressão de vitória.

Durante muito tempo achei injusto precisar dessa blindagem toda enquanto outros pareciam atravessar o amor como quem atravessa uma avenida vazia às três da manhã. Sem medo. Sem cálculo. Sem paranoia. Eu observava aquilo com uma mistura de inveja e desprezo. Porque quem já caiu de lugares altos aprende a desconfiar até da beleza da vista.

Mas existe uma verdade amarga que a covardia nunca admite: a proteção excessiva também mutila.

Você evita o golpe, sim. E junto evita o acontecimento.

Evita a humilhação, mas também o incêndio.

Evita ser usado, mas lentamente se transforma num homem impecavelmente preservado e emocionalmente inexistente. Uma obra rara guardada num cofre sem visitantes.

Há algo profundamente triste em sobreviver intacto.

No carro, parado antes de descer para o encontro, olho meu reflexo no vidro escuro. A cidade se dissolve em neon borrado atrás de mim. E pela primeira vez em muito tempo entendo uma coisa simples: não importa se alguém tenta jogar xadrez emocional comigo. Não importa se blefam, calculam, escondem cartas na manga ou colecionam versões falsas de si mesmos.

Eu estou indo de olhos abertos.

Esse é o detalhe que muda tudo.

Porque existe diferença entre ser enganado e se abandonar. E eu não me abandono mais. Se houver tombo, que seja real. Se houver dor, que venha do contato com a vida — não do isolamento elegante de quem transformou medo em personalidade.

A torre de marfim é silenciosa demais para quem nasceu querendo tempestade.

Então eu desço do carro.

Ajusto os anéis nos dedos.

O perfume ainda pulsa na pele.

E entro na noite com a tranquilidade perigosa de quem finalmente entendeu que perder nunca foi o maior risco. O maior risco sempre foi deixar o medo escrever a própria história.

Meu castelo não é um lugar onde eu me escondo.

É um lugar de onde eu parto.

- Carlos Pontes.

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