Sem Pressa de Amanhecer
eu fico pensando se foi naquela sexta
ou na outra — a de música alta e copo suando na mão
que eu virei isso
essa coisa meio… noite
não lembro direito
só lembro da luz baixa,
de alguém dizendo meu nome como se fosse importante
(era tarde, tudo parece mais importante depois das duas)
e eu rio alto
eu sempre rio alto à noite
como se fosse um convite, ou um aviso
ou talvez só nervoso mesmo
porque eu sei
tem uma hora que eles vão embora
sempre tem
eu já vi isso acontecer tantas vezes que quase consigo prever
o momento exato em que o encanto quebra
tipo quando o céu começa a clarear meio cinza feio
e a gente finge que não viu
— “depois a gente se fala”
(e nunca é depois, nunca é a gente)
uma vez eu fiquei olhando um deles dormir
o rosto dele sem intenção nenhuma
sem desejo, sem aquele brilho que eu juro que tava ali antes
e pensei, meio besta:
será que é aqui que eu deixo de existir?
eu quis tocar, mas
não toquei
porque vai que ele acorda
e me vê como eu realmente sou
de dia
e eu não sei quem eu sou de dia
talvez seja isso
eu funciono melhor no escuro
menos detalhes, menos perguntas
menos de mim
mas também cansa
cansa ser lembrado só em pedaços
tipo uma música que só toca no refrão
ninguém quer ouvir o resto
eu queria… sei lá
café de manhã sem pressa
mensagem boba no meio da tarde
essas coisas que parecem pequenas mas não são
ou são, não sei
eu confundo tudo
às vezes eu acho que o problema sou eu
outras vezes eu acho que eu só tô escolhendo mal
ou sendo escolhido mal, o que é pior ainda
porque ser escolhido pela metade
é quase mais doloroso que não ser escolhido
enfim
hoje eu voltei pra casa sozinho
o silêncio meio grudando na pele
e pela primeira vez eu não quis ligar música
fiquei só ouvindo o barulho do dia chegando
e pensando
(se é que isso conta como pensar)
será que alguém algum dia
vai me querer assim
sem pressa de amanhecer?
- Carlos Pontes