Olá, meu nome é Jhon Cael!
Preciso começar assim porque, às vezes, a história que conto sobre nós parece ter sido escrita por outra pessoa. Alguém mais seguro. Alguém que sabe onde colocar a culpa.
Eu dizia que o Carlos era louco. Repetia isso com um riso torto, desses que servem mais para encerrar assunto do que para explicá-lo. Louco. A palavra rodava na boca como remédio amargo que não dissolve. Ele me deixou — e essa frase ficou presa na garganta como espinha fina, dessas que a gente sente até quando respira.
Não é que eu não entenda o motivo. Eu entendo em estilhaços. Como um copo que cai no chão e não explode — só racha por dentro, quase invisível, mas nunca mais o mesmo. Ele queria amor em estado quente, servido à mesa, fumegando. Eu olhava para as minhas mãos vazias e via apenas cansaço. Turnos dobrados. Costas tensas. Silêncios acumulados. Eu já entregava tudo o que tinha. Só não era o tipo de tudo que brilha.
Ele falava de reciprocidade como se fosse dança. Eu ouvia como contrato. Palavra bonita, sim — até você perceber que sempre existe a expectativa do retorno, do equivalente, do justo. Amor, para ele, era expansão. Para mim, era cálculo. Quanto eu posso dar sem quebrar? Quanto eu posso prometer sem mentir?
Ele era fogo — mas não o fogo doméstico, comportado, de lareira de filme. Era chama alta, inquieta, dessas que encontram oxigênio até onde não existe. Aproximava-se como quem quer devorar e ser devorado. E eu recuava um centímetro. Um quase nada que ele sempre percebia. O amor dele avançava; o meu media a distância até a saída.
Ele dizia que queria me levar aos céus. Falava de estrelas como quem já tinha uma no bolso. Eu pensava nas contas vencendo na terça-feira. Pensava nas coisas que aprendi cedo demais: que afeto não paga aluguel, que sonho não sustenta casa, que a vida exige mais do que abraço. Minhas raízes não são metáfora — são peso. São medo antigo. São histórias que não contei nem a ele.
Houve uma noite em que ele encostou a testa na minha e disse que só queria ficar. Ficar comigo. Construir algo que não coubesse em planilha nenhuma. Eu ri. Não por ironia — mas por desorientação. Como se ele estivesse me oferecendo um mapa escrito em outra língua. Como se amar fosse simples assim: permanecer.
Eu dizia que precisava crescer primeiro. Trabalhar mais. Oferecer algo maior. Ele respondia que já tinha o que queria. Eu não acreditava. Parecia imprudência. Parecia salto sem rede. E eu nunca soube pular sem calcular a queda.
Agora eu repito que ele é louco. Digo aos amigos, digo ao espelho, digo baixinho enquanto a escova de dentes raspa a madrugada. Mas, quando o quarto esquenta e o silêncio encosta nos móveis, eu lembro do jeito que ele segurava meu rosto com as duas mãos — como se eu fosse frágil e infinito ao mesmo tempo.
E então algo me atravessa.
Não é só saudade.
É a suspeita.
Talvez eu tenha confundido intensidade com perigo.
Talvez eu tenha chamado de loucura aquilo que exigia coragem.
Ou talvez eu esteja certo — e ele viva num mundo onde o amor não teme faltar.
Eu não sei.
Só sei que ele me deixou.
E eu continuo aqui, organizando justificativas como quem organiza recibos —
na esperança de que, se tudo estiver devidamente explicado,
doa menos.
Mas ainda dói.
E nenhuma planilha resolve isso.
- Carlos Pontes