Corpo x Alma
Façam o que quiserem com meu corpo.
A carne sempre foi território vulnerável:
cede ao calor errado,
treme diante de mãos vazias,
confunde fome com destino
e chama de amor
qualquer incêndio que saiba pronunciar seu nome.
O corpo é feito de urgências.
Ele corre atrás do instante
como quem tenta segurar vento entre os dedos.
Se arrepia fácil.
Se entrega fácil.
Às vezes basta um olhar atravessado de desejo
para ele esquecer a própria cicatriz.
Mas a alma —
a alma não.
A alma se esconde atrás de portas antigas,
trancadas a sete chaves de silêncio e pedra.
Vocês podem tocar minha pele,
podem decorar meus vícios,
podem até aprender o caminho exato do meu prazer,
mas nunca entrarão onde aquilo que sou permanece intacto.
Porque a alma não se move por ruído.
Ela não se ajoelha diante do efêmero.
Não se alimenta de noites rasas
nem de promessas feitas com a boca ainda quente de mentira.
O corpo deseja presença.
A alma exige permanência.
O corpo aceita migalhas
quando a solidão pesa demais nos ombros.
A alma prefere o deserto
a beber água nas mãos erradas.
Há toques que atravessam a carne
como tempestades curtas:
barulho, vertigem,
um calafrio bonito que desaparece antes do amanhecer.
E há encontros raros
que permanecem como montanhas —
silenciosos, imóveis, eternos —
mesmo quando o mundo inteiro desaba em volta.
É disso que a alma vive.
De algo que não evapore com o vento.
De algo que sobreviva ao tempo,
ao medo,
à distância,
ao próprio desgaste dos dias.
Porque o corpo é fumaça.
Mas a alma…
a alma é pedra submersa no fundo do rio:
a corrente passa,
o mundo passa,
as mãos passam,
e ainda assim
ela permanece.
- Carlos Pontes