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O Vilão e o Covarde

Antes de tudo, aceitei o papel.

Alguém precisava vestir o figurino
que você costurou às pressas
com linhas de versões incompletas.

Coube em mim.

Há quem passe a vida inteira
ajustando a gravata da própria mentira,
ensaiando expressões diante do espelho,
decorando falas
para nunca dizer o que realmente pensa.

Eu não.

Nunca tive talento
para interpretar um homem
que não existe.

Se me deram o papel de vilão,
entro em cena sem reclamar.

 

 


Há uma estranha liberdade
em não precisar parecer santo.

Não uso máscaras.

 

 


Elas abafam a respiração.

Prefiro o rosto nu,
mesmo quando ele assusta.

Há muito tempo
abandonei o conforto
de ser compreendido por todos.

Descobri que autenticidade
é um idioma
que quase ninguém suporta ouvir.

Enquanto muitos negociam princípios
em troca de aplausos,
eu continuo colecionando cicatrizes.

Custam caro.

 

 


Mas cabem perfeitamente
na pele que escolhi habitar.

O curioso
é que quem mais aponta o dedo
raramente suporta a claridade.

Você aprendeu cedo
a sobreviver atrás da fumaça.

Nunca segura a faca,
apenas escolhe
quem vai aparecer com sangue nas mãos.

Nunca acende o incêndio.

Só sopra discretamente
até que alguém encontre as cinzas.

Sempre existe um rosto
disposto a carregar
a culpa que você abandonou
na porta de outra consciência.

E eu...

eu sempre tive o defeito
de dar a cara a bater.

Talvez por isso
tenha aprendido
que coragem e solidão
costumam dividir a mesma casa.

Diga-me...

eu ainda seria o vilão
se eles soubessem
como fui tratado
quando não havia plateia?

Se vissem
as palavras que você escolheu
quando tinha certeza
de que ninguém escutava?

Se conhecessem
os silêncios usados como castigo,
as ausências calculadas,
os gestos educados
que escondiam desprezo?

Se soubessem
quantas vezes você apertou o gatilho
e deixou outra pessoa
segurar a arma?

Será que o enredo
continuaria tão simples?

Ou descobririam
que alguns heróis
precisam fabricar monstros
para proteger
a própria imagem?

Mas veja...

não tenho interesse
em desmontar seu teatro.

Toda máscara
já nasce com prazo de validade.

O rosto,
cedo ou tarde,
cansa de fingir.

Não preciso reunir testemunhas.

Nem colecionar provas.

Nem disputar o tribunal
das consciências distraídas.

A verdade
não tem a urgência
dos escândalos.

Ela apenas espera.

Enquanto isso,
recuso também
o papel de vítima.

Nunca me interessou
transformar dor
em espetáculo.

Há quem exponha as feridas
para receber aplausos.

Eu prefiro outra liturgia.

Recolho-me.

Fecho a porta.

Apago as luzes.

E deixo que o tempo,
esse artesão paciente,
costure o que ninguém vê.

Lambo minhas feridas
em silêncio,
até que deixem de doer,
até que virem apenas pele,
até que nem mesmo eu
consiga encontrar
o lugar exato
onde um dia sangrei.

Porque há cicatrizes
que não servem
para convencer ninguém.

Servem apenas
para lembrar,
baixinho,
que sobrevivi
sem precisar mudar
quem eu era.

- Carlos Pontes.

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