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Frankenstein Emocional

Eu não nasci,
fui montado numa mesa fria
que não lembro onde fica
— talvez na cozinha da minha infância,
entre o cheiro de café requentado
e o azulejo rachado sob meus pés pequenos.

Costuraram em mim o sotaque do meu melhor amigo,
aquele “r” puxado que nem era meu
mas pegou, grudou feito poeira em casaco escuro.
Do meu ex, herdei as músicas tristes
(e eu nem gostava tanto de guitarra,
mas aprendi a fingir que sim,
até que um dia a mentira virou gosto,
ou quase).

Deram-me valores
como quem entrega roupas usadas:
“serve em você, é só ajustar na barra”.
Eu ajustei.

Ajustei tanto
que hoje não sei
onde termina a bainha
e começa a minha pele...

Sou uma colcha de retalhos
mas não dessas bonitas de feira artesanal —
a minha tem fios soltos,
manchas que não saem
e um pedaço rasgado bem no centro
que eu escondo com casaco,
mesmo no calor.

O trauma foi a linha grossa,
aquela que repuxa o tecido
e deixa tudo meio torto.
Aprendi a sorrir quando alguém levanta a voz.
Aprendi a pedir desculpa antes mesmo de errar.
Aprendi a não chorar
porque chorar desmonta os parafusos
e eu tenho medo de cair em pedaços
no meio da sala.

Às vezes sinto um vazio
como se por trás dos pontos
não houvesse carne,
só eco.
Um quarto sem móveis
onde eu entro descalço
e escuto meus próprios passos
me perguntando:
“tem alguém aí?”

Tem dias em que acordo sendo outro.
Falo diferente,
quero coisas diferentes,
amo com uma intensidade que não reconheço
— depois me arrependo com uma frieza
que também não é bem minha.
Qual pedaço está no controle hoje?
O que aprendeu a fugir
ou o que aprendeu a agradar?

Eu queria dizer que existe um núcleo,
um coração original batendo firme
debaixo das cicatrizes.
Mas às vezes, quando encosto o ouvido no peito,
só ouço o zumbido da eletricidade
mantendo tudo funcionando
por pura insistência.

E o pior é que eu não sou mau.
Eu só queria ser… inteiro.
Queria que alguém me tocasse
sem sentir as emendas,
sem tropeçar nas diferenças de textura.
Queria ser amado
não apesar dos remendos,
mas sem precisar deles.

Mas se eu tirar as costuras,
o que sobra?
Se eu desmanchar cada influência,
cada defesa, cada imitação —
eu ainda fico de pé
ou desmorono numa pilha de tecidos alheios?

Às vezes penso que talvez
não exista um “original”.
Talvez eu seja mesmo isso:
um ajuntado de sobrevivências,
um corpo que aprendeu a se montar
porque ninguém veio me ensinar
como nascer.

 

E se eu sou feito de pedaços,
de quem é o meu nome
quando eu sussurro ele no escuro?

- Carlos Pontes

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