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Pupilas Famintas

Eles diziam meu nome sem abrir a boca.

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Só os olhos.

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A fumaça lenta cortando o teto,
o grave atravessando o peito como um segundo coração,
copos brilhando na penumbra
como pequenos incêndios domesticados.

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E eu ali —
no centro exato da madrugada,
onde ninguém mais pertence ao próprio corpo.

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Existe um momento
em que a vergonha evapora.
Não por coragem.
Por excesso.

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Excesso de música.
De calor.
De desejo acumulado em pupilas famintas.

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​

Você percebe quando os olhares deixam de ser humanos
e viram corrente elétrica.

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Cada rosto ao redor
era uma espécie de altar clandestino,
e eu,
exposto sob luzes vermelhas intermitentes,
aprendendo o gosto violento
de ser observado até desaparecer.

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​

Não havia inocência naquele lugar.
Só consentimento e vertigem.

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Mãos no ar.
Respirações suspensas.
A dança lenta entre poder e rendição.

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​

Porque existe poder
em permitir que te vejam ruir.

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​

Existe domínio
em abrir a própria queda
como quem abre cortinas.

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Eu sentia cada segundo
como um animal luminoso correndo sob a pele,
cada reação da plateia noturna
alimentando alguma coisa escura e bela
dentro de mim.

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​

Eles observavam
como se esperassem um colapso.
Como se quisessem assistir
o instante preciso
em que prazer deixa de ser prazer
e vira transcendência.

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​

E talvez tenham visto.

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Talvez tenham visto
quando minha respiração perdeu o ritmo,
quando o mundo ficou líquido,
quando o som da pista se dissolveu
até restarem apenas os olhos.

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​

Centenas deles.

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Fixos.

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Sedentos.

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Quase religiosos.

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Nunca me senti tão vulnerável.
Nunca me senti tão absoluto.

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Porque há uma liberdade brutal
em ser desejado sem esconder o rosto.

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​

Uma violência doce
em abandonar o controle
e transformar o próprio êxtase
num espetáculo silencioso.

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​

No fim,
ninguém aplaudiu.

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​

A madrugada apenas continuou respirando,
indiferente e neon,
como uma cidade que já viu
mil corpos queimarem de prazer
antes do amanhecer.

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​

Mas eu saí diferente.

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​

Como quem atravessou fogo
e descobriu,
do outro lado,
que ser observado profundamente
também é uma forma de nudez.

​

- Carlos Pontes.

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