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Navegando ao Lado

Quando eles chegaram, trouxeram consigo o hábito antigo de quem sempre segura o leme. Não era arrogância explícita. Era costume. Um tipo de pressa que se confunde com competência. Um modo de olhar o horizonte como quem já escolheu por todos onde o dia termina.

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Estavam acostumados a travessias silenciosamente obedientes.

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Outras pessoas sentavam na proa. Observavam as margens passarem. Faziam perguntas suaves, aceitavam respostas incompletas, confiavam na firmeza das mãos que decidiam a rota. Era assim que o mundo funcionava para eles: alguém conduz, alguém acompanha. Alguém calcula o vento. Alguém agradece a paisagem.

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Eles sabiam prever hesitações antes mesmo de nascerem. Sabiam acelerar conversas. Sabiam antecipar afetos. Sabiam onde parar antes que o outro percebesse que queria parar.

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Sabiam tudo isso.

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Por isso, quando falaram com você naquela primeira noite longa — longa como certas marés que não se anunciam no calendário — sentiram algo deslocar dentro da madeira do próprio barco.

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Você não falava como quem espera ser levado.

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Falava como quem já partiu.

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Suas histórias não pediam direção. Elas traziam mapas dobrados dentro da voz. Mapas antigos. Mapas riscados à mão. Mapas molhados de chuva e insistência. Você mencionava cidades como quem conhece o peso das estações. Falava de perdas como quem aprendeu a remar contra corrente sem plateia. E falava de futuro com a tranquilidade de quem não teme a ausência de porto.

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Eles sorriram.

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Pensaram: entusiasmo.

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Depois pensaram: charme.

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Só mais tarde perceberam que era bússola.

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Houve um instante — ninguém saberia dizer qual — em que o vento mudou de lado sem mudar de direção. Foi sutil. Como o estalo discreto da madeira quando o casco encontra outra temperatura de água. Como o silêncio que antecede certas perguntas que não podem mais ser evitadas.

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Foi quando entenderam.

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Você não estava no barco deles.

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Você navegava ao lado.

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Não atrás.

 

 


Não à frente.

 

 


Ao lado.

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E isso não cabia em nenhum gesto que conheciam.

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Porque navegar ao lado exige outra coragem. Exige aceitar que o mar não responde a um único comando. Exige admitir que há horizontes que não pertencem a ninguém. Exige suportar o som da própria rota deixando de ser suficiente.

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Eles diminuíram o ritmo.

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Primeiro quase imperceptivelmente.

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Depois com atenção.

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Não era hesitação. Era escuta.

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Começaram a notar coisas pequenas. O modo como você discordava sem levantar ondas desnecessárias. O modo como permanecia presente sem se inclinar para caber. O modo como recusava atalhos que encurtariam a viagem, mas entortariam a verdade.

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Você não resistia a eles.

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Você permanecia em si.

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E essa permanência não era distância.

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Era eixo.

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Um eixo silencioso, firme como quilha antiga enterrada fundo o bastante para não tremer com as primeiras correntes. Um eixo que não confrontava. Não exigia. Não implorava espaço. Apenas existia com a serenidade de quem sabe que o mar não é território de donos, mas de leitores atentos de vento.

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Foi então que aconteceu algo raro.

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Eles passaram a observar você como se observassem o céu antes de tempestade.

Queriam entender como você percebia mudanças antes que a água escurecesse. Como reconhecia correntes invisíveis. Como sustentava o próprio rumo mesmo quando o vento convidava para atalhos mais rápidos e menos verdadeiros.

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Pela primeira vez, não conduziam.

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Acompanhavam. 

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E acompanhar, para quem sempre guiou, é um tipo profundo de vertigem.

No início sentiram estranheza. Depois curiosidade. Depois uma quietude nova, semelhante àquela que chega quando se atravessa uma faixa de oceano onde a água fica subitamente mais clara e ninguém sabe explicar por quê.

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Seguir ao seu lado não era confortável.

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Era expansivo.

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Porque algumas presenças não ocupam lugar dentro do nosso barco.

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Elas alargam o mar.

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E enquanto navegavam próximos de você — ainda com as mãos habituadas ao leme, ainda com mapas antigos dobrados nos bolsos da memória — começaram a perceber algo que nunca lhes havia ocorrido antes:

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talvez conduzir não fosse o único modo de existir numa travessia.

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Talvez houvesse outras formas de caminhar sobre a água.

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Talvez o horizonte não fosse destino.

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Talvez fosse convite.

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E então entenderam, com uma espécie de silêncio luminoso que não cabe em explicações, que certas pessoas não aparecem para serem levadas, nem para disputar direção, nem para provar força.

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Aparecem para lembrar que o oceano é maior do que qualquer rota já traçada.

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E que navegar ao lado de alguém livre não reduz o caminho.

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​

Multiplica o mundo. 

 

- Carlos Pontes.

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