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Beijei Mapas, Não Coroas

Eu cresci achando que o amor vinha com coroa.

Que alguém ia me escolher e pronto,

fim da busca, fim do cansaço.

Felizes para sempre,

como se fosse um endereço fixo.

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Mas o príncipe nunca veio inteiro.

Ele vinha quebrado em pessoas.

Um chegava cheirando a cigarro e café velho,

outro trazia palavras que eu não sabia pronunciar

e uma história que me cortava a língua.

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Eu beijei mapas.

Beijei sotaques.

Beijei promessas feitas em cozinhas estranhas,

com panelas queimando e o mundo errado no relógio.

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E toda vez eu pensava: é agora.

É esse.

Mesmo quando algo em mim gritava

que não, que não, que NÃO.

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Teve amor que parecia um animal ferido

morrendo no meu colo

e eu fingindo que não via o sangue.

Teve amor que me deixou com raiva do espelho,

com vontade de quebrar os dentes de quem me ensinou a sonhar assim.

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Eu queria um só corpo para descansar.

Ganhei muitos,

e em nenhum deles cabia o meu nome direito.

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Hoje o “felizes para sempre” parece um bicho empalhado,

olhos de vidro, sorriso falso,

guardado no fundo do quarto

me olhando enquanto eu tento dormir.

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​

Ainda quero ser amado.

Mas agora sei

que o príncipe não existe

— existem pessoas passando por mim,

arrancando pedaços, deixando lembranças tortas,

e eu costurando tudo do jeito que dá,

com a mão tremendo,

sem manual, sem promessa, sem final.​​

 

 

- Carlos Pontes

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