Ponto de Gravidade
Ele não entra nos lugares.
Ele acontece neles.
Basta atravessar uma porta
para que alguma coisa se desalinhe.
O homem que fingia estar ocupado
olha duas vezes.
O que falava alto
baixa a voz.
O que tinha pressa
descobre, de repente,
que pode permanecer mais alguns minutos.
Ele percebe.
É claro que percebe.
Percebe os olhos que o seguem
como quem acompanha uma lâmina
sem coragem de tocá-lo.
Percebe o desejo cuidadosamente disfarçado
atrás de perguntas banais,
de sorrisos ensaiados,
de aproximações que começam
e morrem a poucos centímetros dele.
Eles querem atenção.
Querem uma fresta.
Um gesto.
Um sinal mínimo
que lhes permita acreditar
que talvez tenham alguma chance.
Mas ele não distribui milagres
para quem chega carregando medo.
Há homens que passam horas
construindo coragem
e, quando finalmente a encontram,
descobrem que já perderam o momento.
Ele não espera.
Não porque seja cruel.
Mas porque aprendeu
que o próprio tempo
é uma forma de soberania.
Então continua andando.
Coluna ereto.
Olhar tranquilo.
Como se não houvesse uma pequena revolução
acontecendo ao redor de seus passos.
E talvez essa seja a parte
que mais os perturbe:
ele não precisa deles.
Não precisa ser escolhido.
Não precisa ser desejado
para confirmar que é desejável.
Não precisa ouvir elogios
para saber o próprio valor.
Ela conhece o tamanho da própria presença.
E sabe que certas pessoas
passam a vida confundindo
admiração com coragem.
Olham.
Desejam.
Fantasiam.
Hesitam.
E depois chamam de destino
a oportunidade que tiveram
e não souberam sustentar.
Ele, não.
Ele não transforma covardia alheia
em dúvida sobre si mesmo.
Não diminui a própria luz
para que olhos despreparados
consigam permanecer abertos.
Não desce o tom.
Não suaviza a presença.
Não pede licença
para ocupar o centro da própria vida.
Porque há pessoas que entram em uma sala
procurando alguém que as complete.
Ele entra
e a sala inteira parece lembrar
que ele já veio inteiro.
Talvez seja por isso
que alguns homens o desejem em silêncio.
E talvez seja por isso
que tantos recuem.
Não é que ele seja inalcançável.
É que, diante dele,
qualquer homem precisa primeiro
decidir se tem coragem
de abandonar a própria mediocridade.
Ele não joga para ser notado.
Ele joga porque nasceu sabendo o próprio valor.
E enquanto os outros calculam o risco,
ele já atravessou a porta.
Enquanto eles ensaiam uma aproximação,
ela já mudou de horizonte.
Enquanto eles perguntam
se deveriam ter tentado,
ele simplesmente continua.
Magnético.
Soberano.
Imperturbável.
Um ponto de gravidade
em um mundo cheio de homens
acostumados a confundir
hesitação com prudência.
Ele não os persegue.
Não os convence.
Não os espera.
Apenas segue.
E essa talvez seja
a sua forma mais elegante
de poder:
deixar que cada um descubra sozinho
o preço de não ter tido coragem.
- Carlos Pontes