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OFF

Disseram que a entrada era gratuita.

Mentiram.

O ingresso era pago em parcelas invisíveis:
um gole,
mais um gole,
mais um gole,
até que a consciência escorregasse pelo gargalo
e ninguém mais percebesse o próprio preço.

O bairro tinha CEP de vitrine.

 

 


As montanhas abraçavam Belo Horizonte
como se a cidade inteira fosse um colar de diamantes
jogado sobre um cadáver ainda quente.

Lá embaixo,
milhares de luzes.

Lá em cima,
milhares de sombras bem vestidas.

Empurravam copos na minha mão
como quem oferece flores a um condenado.

"Bebe."

"Bebe mais."

"Bebe."

Não era hospitalidade.

Era anestesia.

Queriam afogar meu instinto
antes que ele aprendesse a nadar.

Mas o álcool encontrou uma lucidez
que já tinha sobrevivido a venenos maiores.

Então a música rachou.

O grave continuava martelando o peito,
mas alguma coisa saiu do compasso.

Foi quando eu vi.

Os corpos começaram a perder o nome.

Peitorais polidos.

Abdômens esculpidos.

Peles que nunca conheceram o sol das seis da manhã.

Camisas caíram no chão
como embalagens descartáveis.

E, de repente,
a palavra apareceu onde ninguém queria enxergar.

VENDE-SE.

Não escrita.

Gravada.

Na testa.

Na postura.

No sorriso treinado.

Na forma exata de inclinar o pescoço
para parecer mais caro.

Não era pista de dança.

Era açougue gourmet.

Carne iluminada por neon.

Músculos expostos como cortes nobres
atrás de um vidro invisível.

Cada passo de dança
era um código de barras tentando seduzir um scanner.

No camarote,
os verdadeiros clientes.

Taças de cristal.

Relógios que valiam apartamentos.

Sorrisos sem saliva.

Olhos sem humanidade.

Não olhavam homens.

Inspecionavam mercadoria.

Mediam dentes.

Pele.

Idade.

Simetria.

Prazo de validade.

Era um leilão sem martelo,
porque bastava um olhar
para alguém entender que tinha sido comprado.

Ali ninguém beijava.

Consumiam.

Ninguém desejava.

Comparavam.

Ninguém conhecia.

Avaliavam.

Era capitalismo em carne viva,
vestido de liberdade sexual.

O mercado descobriu
que não precisava vender produtos.

Bastava convencer pessoas
de que elas eram um.

Então tentaram me encaixar na prateleira.

Senti os olhos calculando.

Quanto vale?

Quem compra?

Qual categoria?

Premium?

Descartável?

Fitness?

Exótico?

Troféu?

Mas existe um defeito grave
em qualquer sistema de controle.

Ele entra em curto
quando encontra alguém
que não aceita etiqueta.

Foi aí que a rebeldia sorriu.

Peguei o copo.

Bebi porque eu quis.

Dancei porque eu quis.

Ri porque eu quis.

Mas não negociei um único centímetro da minha alma.

Enquanto procuravam compradores,
eu colecionava saídas de emergência.

Enquanto disputavam quem seria escolhido,
eu celebrava o privilégio de nunca precisar vencer aquele concurso.

Porque o luxo deles
é estéril.

Brilha.

Mas não ilumina.

Perfuma.

Mas não respira.

Seduz.

Mas nunca toca.

Eu fui o erro estatístico daquela festa.

O vírus.

A peça que entrou na engrenagem
e se recusou a girar.

Eles queriam transformar meu corpo
num anúncio.

Saí de lá
como um manifesto.

Porque existe uma diferença brutal
entre estar desejável
e estar à venda.

E eu aprendi,
observando aquela cidade inteira piscando lá embaixo,
que algumas das vistas mais bonitas do mundo
servem apenas para distrair os olhos
enquanto arrancam o preço da sua testa.

Voltei para casa
sem comprador.

Sem dono.

Sem etiqueta.

E isso,
naquela festa,
era a coisa mais obscena que alguém podia vestir.

- Carlos Pontes.

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