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O INVENTÁRIO DA MINHA FOME

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Eu sou um amante egoísta, ciumento e possessivo.

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Não vou enfeitar minha monstruosidade com as palavras bonitas que os poetas usam quando têm vergonha de admitir que também sabem destruir.

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Eu quero você. Mas não apenas o corpo que você me oferece quando a noite fecha as cortinas e o mundo, por algumas horas, esquece que você existe.

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Eu quero o que você esconde. O pensamento que interrompe quando me aproximo. O nome que atravessa sua memória e faz seus olhos hesitarem por um segundo. Quero conhecer o abismo que existe em você e ser o único homem autorizado a olhar para dentro.

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Quero as suas manhãs, seus domingos preguiçosos, seus silêncios inexplicáveis, suas tristezas sem testemunhas.

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Quero até aquilo que você ainda não descobriu que pode me oferecer.

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E é aí que começa a minha desgraça:

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eu não sei onde termina o amor e começa a minha fome de possuir.

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Construí corredores dentro do peito e chamei de intimidade. Fechei as portas e chamei de proteção. Escondi as chaves debaixo da língua e chamei de promessa.

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Quando você se aproxima, sou incêndio.

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Quando você se afasta, sou ruína.

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Basta um silêncio mais longo, uma mensagem sem resposta, um sorriso que não me pertence, para que alguma coisa primitiva acorde debaixo da minha pele.

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E eu começo a imaginar.

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Imagino suas mãos em outros lugares, sua boca pronunciando outros nomes, seu corpo descobrindo liberdades nas quais eu não estou incluído.

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Imagino você feliz em uma vida que não precisa de mim.

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E essa é a imagem que mais me apavora:

não a sua partida, mas a possibilidade de que, depois dela, você continue existindo sem sentir falta de nada.

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Porque eu suportaria o ódio. O ódio ainda me daria um lugar dentro da sua história.

Mas a indiferença?

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A indiferença é uma casa demolida na qual nem sequer sobra uma parede para escrever o meu nome.

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Então eu aperto.

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Aperto sua presença contra a minha, seu afeto contra o meu desespero, seus dedos contra os meus, como se a força das minhas mãos pudesse convencer o universo a não levar aquilo que amo.

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Aperto tanto que já não sei distinguir o calor do seu corpo da dor dos meus próprios dedos.

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E tenho medo.

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Medo de que você se quebre entre as minhas exigências. Medo de que seu riso desapareça sob o peso das minhas perguntas. Medo de que você comece a chamar de sufoco aquilo que, dentro de mim, ainda insisto em chamar de amor.

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Porque existe uma parte de mim que gostaria de arrancar todas as portas do mundo e deixar você aqui, comigo, para sempre.

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E existe outra, pequena, miserável, quase humana, que me observa no escuro e pergunta:

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Se você precisa me prender para ter certeza de que sou seu, o que exatamente acredita possuir?

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Eu odeio essa pergunta.

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​

Ela abre janelas em lugares onde construí paredes. Deixa entrar uma luz inconveniente sobre os meus métodos de sobrevivência.

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Porque, no fundo, eu conheço o nome dessa criatura que alimento com ciúme.

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Ela não nasceu do excesso de amor.

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​

Nasceu do medo.

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Medo de ser substituído. De ser apenas mais um corpo na memória de alguém. De entregar a um homem as partes mais indefesas da minha existência e descobrir que, para ele, eu era apenas uma passagem.

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Talvez eu tenha aprendido cedo demais que tudo aquilo que é amado pode desaparecer.

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Talvez tenha confundido permanência com vigilância, lealdade com obediência, entrega com rendição.

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Talvez eu queira ser inesquecível porque não suportaria ser descartável.

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E talvez seja por isso que eu tente deixar minhas marcas até nas coisas que não me pertencem.

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Mas há uma verdade que nenhuma sombra consegue esconder:

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​

ninguém permanece inteiro nas mãos de quem tem medo de soltá-lo.

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Ainda assim, se você me perguntasse o que eu faria para não perder você, eu teria vergonha de responder.

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Porque meu primeiro impulso seria prometer o impossível.

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Eu incendiaria as pontes, negociaria com o inferno, arrancaria estrelas do céu para iluminar os seus passos e depois odiaria a ideia de que você pudesse caminhar para longe de mim.

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Eu seria capaz de construir um reino e passar o resto da vida vigiando as fronteiras.

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Daria a você a coroa, o quarto mais bonito, a metade mais quente da cama.

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Mas, em minhas noites piores, talvez quisesse também decidir a direção dos seus sonhos.

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E que espécie de rei tem tanto medo de perder o próprio reino que transforma o palácio em uma prisão?

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Não me absolva.

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Não chame de intensidade aquilo que ameaça sufocar. Não confunda a minha ferida com uma licença para ferir você.

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Eu conheço a escuridão que carrego. O que ainda não aprendi é como amá-lo sem entregar a ela as chaves da nossa casa.

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Por isso, escute bem:

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​

Eu sou um amante egoísta, ciumento e possessivo.

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​

Eu nunca vou deixar você levar nada de mim.

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É o que digo quando a insegurança me veste de ferro, quando o abandono se senta à mesa e a minha sombra parece maior do que o homem que a projeta.

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Mas a verdade, aquela que me arranca a pele quando finalmente fico sozinho, é que não tenho medo de você levar alguma coisa minha.

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Tenho medo de que leve tudo aquilo que me faz acreditar que sou digno de ser amado.

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E, se um dia você partir, não será apenas a sua ausência que me deixará de joelhos.

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Será o silêncio posterior. A cama sem testemunhas. O copo intocado. A porta fechada sem violência.

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Será descobrir que você não destruiu meu mundo ao sair dele.

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​

Eu é que havia construído um mundo inteiro em torno da obrigação de você nunca partir.

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E agora compreendo, tarde demais para fingir inocência, que minhas mãos podem guardar lembranças, meu peito pode abrigar tempestades, minha boca pode implorar por eternidade.

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​

Mas nenhuma dessas coisas pode transformar uma escolha em propriedade.

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​

Você nunca foi meu para sempre.

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​

Você foi alguém que, por algum tempo, quis estar aqui.

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E eu, que desejei tanto ser impossível de perder, preciso enfrentar a única coisa que nunca consegui controlar:

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a liberdade de quem amo.

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Talvez seja essa a minha verdadeira penitência.

Não aprender a amar menos.

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Mas aprender que o amor, para continuar vivo, precisa respirar mesmo quando cada parte de mim implora para fechar a porta.

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E deixar a chave onde você possa encontrá-la.

Mesmo que, naquela noite, eu tenha de aprender a dormir com as mãos vazias.

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- Carlos Pontes

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