O Frio da Lâmina Antes do Toque
Eu já encerrei a temporada
dos homens que chegam com promessas
e saem deixando desculpas.
Já conheço o truque.
A palavra bonita,
o olhar treinado,
a presença calculadamente ambígua,
o afeto servido em pequenas doses
para manter alguém faminto.
Não me impressiona.
Eu sobrevivi ao teatro
e, pior que isso,
aprendi a enxergar os fios
por trás das cortinas.
Hoje visto uma armadura
que não foi forjada para parecer bonita.
Foi forjada para resistir.
Cada placa carrega
o peso de uma ilusão enterrada.
Cada lâmina nasceu
de uma promessa quebrada.
Cada escudo aprendeu
a não confundir aproximação
com intenção.
Não há brecha.
Não porque eu tenha medo de sentir.
Mas porque já não tenho paciência
para sentir qualquer coisa.
Meu coração não está fechado.
Está blindado.
Há uma diferença brutal.
Eu não procuro resgate.
Não quero um herói.
Não preciso de mãos
para me retirar do abismo.
Eu mesmo construí a saída.
E se ainda existe fome em mim,
ela não é fome de companhia.
É fome de matéria.
De presença.
De pele que não seja ausência.
De olhos que sustentem o olhar.
De palavras que tenham ossatura.
De alguém que exista
com a mesma densidade
com que promete.
Quero o real.
O resto pode permanecer
do lado de fora dos portões.
Porque meu território
não é lugar para amadores.
Aqui não entram homens
que confundem desejo com coragem,
atenção com afeto,
conveniência com escolha.
Não atravessa minha muralha
quem chega apenas para testar
se ainda consegue me ferir.
Já testaram.
O metal aprendeu.
Hoje, quem toca minha superfície
sente o frio da lâmina
antes mesmo de perceber
que estava diante dela.
Há alta voltagem
correndo sob minha pele.
Não é ameaça.
É natureza.
Aproxime-se sem estofo
e será incinerado pelo próprio atrevimento.
Não porque eu queira destruir.
Mas porque determinadas estruturas
não foram feitas para suportar
determinadas tensões.
Eu não diminuirei minha potência
para que alguém permaneça inteiro.
Não apagarei meus circuitos.
Não baixarei a guarda.
Não transformarei minha intensidade
em uma versão domesticada
para facilitar a entrada de ninguém.
Quem vier
terá de saber onde está pisando.
Terá de possuir peso.
Coluna.
Substância.
Terá de saber permanecer
quando a superfície deixar de ser bonita
e a verdade começar a cobrar seu preço.
Porque eu não quero alguém
que saiba me conquistar.
Quero alguém
que saiba me sustentar o olhar
depois da conquista.
Alguém que não recue
quando descobrir
que por trás da armadura
não existe um homem quebrado.
Existe um homem inteiro.
E talvez seja exatamente isso
que assuste.
Eu não ofereço abrigo
a quem procura colo para sobreviver.
Ofereço presença
a quem já sabe ficar de pé.
Não quero ser escolhido
por falta de opção.
Quero ser reconhecido
por excesso de consciência.
Portanto,
se pretende atravessar meus portões,
venha inteiro.
Venha sem truques.
Sem migalhas.
Sem discursos de emergência
pronunciados por homens
que desaparecem ao amanhecer.
Venha com o peso
de quem conhece o próprio nome.
Porque aqui,
depois de tantas guerras,
eu não sou mais
o território a ser conquistado.
Sou a fronteira.
E quem não tiver estrutura
para atravessá-la
será apenas mais um nome
gravado na lâmina
daquilo que eu finalmente
aprendi a não tolerar.
- Carlos Pontes