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O Arcano do Amanhecer

Disseram-lhe
que o casamento era uma ponte.

Mas descobriram tarde
que pontes também servem
para conduzir cordeiros ao matadouro.

Vestiram-na de branco
como quem embrulha um corpo
antes mesmo da morte.

Naquela terra,
onde o horizonte aprendia a ajoelhar-se
diante dos homens,
o nome dela desapareceu
antes da primeira noite.

Sobrou apenas
a esposa.

Uma palavra
pesada como uma pedra
presa ao tornozelo de um rio.

Seu corpo
era uma casa ocupada.

Cada hematoma
era uma assinatura
que ela jamais autorizou.

Os pulsos aprenderam
o idioma frio das algemas.

As costelas
guardavam o inventário dos invernos.

A cama
era um altar invertido,
onde o sacrifício nunca terminava
e o deus adorado
sempre exigia mais carne.

Ela respirava
como quem pede desculpas ao próprio ar.

Até o espelho
desviava os olhos.

Porque existem violências
que fazem a luz
sentir vergonha.

Mas há fogueiras
que escolhem morar debaixo da cinza.

Quando a noite
apagava os passos do tirano,
ela fechava as janelas,
acendia uma vela pequena
e retirava de um pano gasto
um baralho proibido.

Não buscava riquezas.

Nem amantes.

Nem promessas fáceis.

Espalhava as cartas
como quem devolve estrelas
ao céu roubado.

Cada Arcano
era uma fresta.

Cada símbolo,
uma respiração.

Cada lâmina,
um músculo invisível
recusando-se a morrer.

Enquanto o mundo
lhe algemava os braços,
o oráculo
ensinava sua alma
a fabricar chaves.

Porque correntes
sempre conhecem
o idioma do ferro.

Mas jamais aprenderam
a gramática do espírito.

Então nasceu a menina.

Pequena.

Silenciosa.

Com os olhos
ainda limpos
da poeira das gerações.

A mãe a segurou
como quem segura
o último pedaço de futuro
antes do incêndio.

E compreendeu
que algumas mulheres
não sobrevivem
para si mesmas.

Sobrevivem
para interromper
a herança da dor.

Naquela noite,
as cartas deixaram de responder
sobre ela.

Cada leitura
era um mapa escondido.

Um caminho entre montanhas.

Uma porta
atrás da parede.

Um rio subterrâneo
que nenhum carcereiro conhecia.

As cartas 
não previa milagres.

Ensinava estratégias.

Não apagava cicatrizes.

Mostrava
onde elas terminavam.

Os ancestrais
aproximaram-se
como poeira iluminada
dançando na chama da vela.

As mulheres esquecidas.

As avós sem voz.

As bisavós vendidas
como se fossem estações de colheita.

Todas respiravam
através das cartas.

Todas diziam
a mesma oração:

Que esta seja a última.

E um dia,
sem trombetas,
sem reis derrotados,
sem o espetáculo
que os livros gostam de inventar,

ela partiu.

Levou apenas
a filha,
o baralho gasto
e a coragem
que havia sido embaralhada
durante tantos anos.

As correntes
continuaram no chão.

Vazias.

Porque descobriram,
tarde demais,
que nunca foram feitas
para prender uma alma.

A menina caminhava à frente.

A mãe,
logo atrás.

E o vento,
pela primeira vez,
não parecia uma ameaça.

Parecia um Arcano
virado para cima.

Como se o próprio destino
tivesse aprendido
que a liberdade
também pode ser lida
carta por carta.

Até que nenhuma filha
precise herdar
o sobrenome do medo.

- Carlos Pontes.

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