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Ninguém ensina a ver o amor morrer

acho que começou num detalhe bobo
tipo você parar de reclamar do meu atraso
(antes você reclamava, lembra?)
e eu achava ruim, mas…
era um tipo de presença

depois você só disse “tanto faz”
e eu ri — idiota —
achando que era maturidade

não era

era já um pedaço morrendo

eu fui juntando essas mortes pequenas
como quem guarda moedas no bolso
sem perceber o peso
até puxar o tecido pra baixo

teve também aquele domingo
o ventilador fazendo barulho de sempre
e eu falando alguma coisa meio sem graça
só pra te arrancar um sorriso

você sorriu
mas atrasado
como se tivesse que lembrar de mim primeiro

e eu senti
na hora mesmo
um negócio meio oco abrindo aqui
(é aqui? peito? sei lá)

e mesmo assim
fiquei

fiquei assistindo
com uma calma que não era calma
tipo quando a gente vê um copo caindo
e sabe que não dá tempo de segurar

mas olha assim mesmo
até o fim

teve noites que você ainda me tocava
e eu quase acreditava
o corpo às vezes mente bem melhor que a gente

ou talvez fosse eu mentindo
usando teu braço como prova
de uma coisa que já não existia direito

e eu pensava
“não, não acabou”
como se pensar resolvesse

como se amor obedecesse argumento

ridículo

(eu sei)

o pior é que não teve briga grande
nem palavra feia pra apontar
não teve aquele momento dramático
que a gente poderia culpar depois

foi só você…
parando

parando de me escolher
parando de me ver
parando de voltar

e eu
continuando

como quem fica num cinema vazio
depois que o filme já terminou
olhando os créditos
mesmo sabendo
que não tem cena final escondida

às vezes eu tento lembrar
o último dia que você me amou de verdade

não consigo

e isso me assusta mais
do que qualquer certeza

porque se eu não sei quando acabou
talvez

talvez eu tenha inventado metade disso tudo

ou pior —
talvez você tenha amado mesmo

e eu só cheguei depois
quando já tava indo embora.

 

- Carlos Pontes.
 

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