Eu não matei nenhum cisne
Eu demorei pra admitir —
tenho esse atraso crônico com verdades simples —
mas hoje eu vi.
Não foi epifania.
Nenhuma luz descendo em câmera lenta.
Foi coisa pequena,
dessas que aparecem sem pedir licença
no reflexo torto
do vidro de um ônibus parado
quando a cidade ainda boceja.
O cisne branco
não era puro.
Nunca foi.
Tinha uma mancha na asa,
um risco escuro mal resolvido,
parecia graxa,
parecia lembrança antiga
daquelas que não saem
nem com esfregão nem com fé.
Ele se movia devagar,
como quem pede desculpa ao próprio corpo
por ocupar espaço.
Carregava regras nos ossos,
culpas dobradas com cuidado,
um medo bonito, quase educado,
de errar alto demais
e quebrar algo que nem sabia nomear.
O cisne negro, ao contrário,
brilhava.
Brilhava demais.
Um preto lustroso, quase ofensivo,
desses que aprendem cedo
que sobreviver
às vezes exige palco,
exige excesso,
exige virar o barulho
que ninguém consegue ignorar.
Ele ria com o corpo inteiro,
abria caminho com o peito,
batia asas sem medir consequência,
livre —
ou fingindo tão bem
que até ele acreditou
na própria história.
E eu ali,
no meio da travessia,
café frio queimando os dedos,
o coração fora de ritmo,
com aquela sensação antiga
de que escolher lados
sempre foi meu jeito mais elegante
de não ficar inteiro.
Eles giravam no lago.
Sem música.
Ou talvez houvesse,
mas vinha de dentro,
um tum-tum irregular,
meu peito tentando acompanhar
sem saber se dança ou se afunda.
O branco oferecia ao negro
o peso do silêncio,
a pausa antes do salto,
o direito raro
de não explicar tudo.
O negro oferecia ao branco
o empurrão quase carinhoso do risco,
a coragem de cair feio,
sem pedir desculpa ao chão,
sem prometer que nunca mais.
Um escorria no outro.
Yin borrando o Yang,
Yang rachando o Yin.
Nenhum santo.
Nenhum vilão suficiente
pra sair limpo dessa água.
Eu senti vergonha.
Uma vergonha morna, persistente.
Passei anos tentando afogar um deles
com palavras bonitas,
com moral emprestada,
com medo vestido de virtude
— achando que isso era crescer.
Mas naquela dança torta,
eles não queriam se salvar.
Nem se corrigir.
Nem virar exemplo.
Só se sustentavam.
Como duas mãos cansadas
que ainda sabem segurar
mesmo tremendo.
Meu corpo entendeu antes da cabeça.
Sempre entende.
Um calor discreto no estômago,
uma calma que não embala,
mas também não empurra.
Uma paz meio suspeita,
dessas que não prometem nada.
Talvez integrar seja isso:
não vencer,
não curar,
não virar lição de ninguém.
Talvez seja só
parar de empurrar o cisne errado
pra debaixo d’água
e aceitar
que eu flutuo melhor
quando os dois batem asas juntos.
Ainda não sei
se isso é equilíbrio
ou só uma trégua possível
num corpo que cansou de guerra.
Mas se eu deixar os dois vivos em mim,
lado a lado,
sem hierarquia,
sem altar,
talvez — só talvez —
quando o lago secar,
eu ainda saiba
quem fui
enquanto havia água.
- Carlos Pontes