A Última Armadura
Passei anos polindo espelhos
como quem afia uma espada.
Aprendi a decorar o próprio reflexo
com roupas bem cortadas,
com sorrisos na medida certa,
com a falsa elegância
de quem acredita
que o amor escolhe vitrines.
Disseram que a beleza protege.
Que o dinheiro silencia ausências.
Que a juventude prolonga milagres.
Então vesti cada uma dessas promessas
como um cavaleiro desesperado
que confunde brilho
com abrigo.
Mas toda armadura
faz o mesmo favor cruel:
impede a espada de entrar,
e também o abraço.
Há noites
em que encaro meu rosto no espelho
e não procuro rugas.
Procuro a parte de mim
que ainda acredita
que pode ser amada
quando todas as luzes se apagam.
Porque o espelho conhece
a curva do meu corpo,
mas nunca conseguiu refletir
o peso dos silêncios
que escondo atrás dos olhos.
E o tempo...
O tempo é um ladrão elegante.
Não arromba portas.
Não faz ameaças.
Apenas entra,
leva embora a pele esticada,
o vigor das mãos,
a insolência dos vinte anos,
e me deixa diante da única pergunta
que sempre esperei adiar:
Quando tudo isso partir,
quem permanecerá
para ser amado?
Talvez seja esse
o verdadeiro terror de amar.
Não o abandono.
Mas a possibilidade
de oferecer a alguém
aquilo que nem eu consigo avaliar.
Minha essência.
Esse território invisível,
sem maquiagem,
sem patrimônio,
sem currículo,
sem fotografias bem escolhidas.
Apenas a alma,
sentada à mesa,
esperando que alguém
não se decepcione.
Às vezes penso
que meu medo nunca foi do amor.
Foi de descobrir
que eu precisava dele
antes de aprender
a acreditar em mim.
Porque ser escolhido
parece uma espécie de absolvição.
Como se os olhos de outra pessoa
pudessem emitir um veredito
que o espelho jamais foi capaz.
"Você basta."
Mas ninguém pode dizer isso
em meu lugar.
E talvez seja por isso
que amar doa tanto.
Amar é retirar,
com as próprias mãos,
a última armadura.
É permanecer imóvel
enquanto alguém observa
não o ouro do elmo,
nem o brilho da espada,
mas a carne vulnerável
que sempre existiu por baixo.
Se partir,
não haverá metal
para culpar.
Se ficar,
não terá sido pela máscara.
Terá sido
porque, entre todas as coisas
que o tempo inevitavelmente leva,
alguém encontrou abrigo
justamente na única
que ele jamais consegue envelhecer:
a alma.
- Carlos Pontes.