A ENTIDADE SOB O COURO
Antes do couro,
eu era apenas um homem.
Um rosto entre rostos.
Uma sombra domesticada
atravessando o mundo
sem que o mundo percebesse.
Então eu visto a jaqueta.
E alguma coisa acorda.
Não lentamente.
Faminta.
O couro fecha sobre meus ombros
como a tampa de um caixão
que alguém teve a imprudência
de abrir.
Segunda pele.
Armadura de asfalto.
Manto de calor e sombra.
Ela sela minha aura
como quem sela uma criatura
antes que ela atravesse a porta.
Mas já é tarde.
Porque ela não me protege da entidade.
Ela contém a entidade.
O couro estala.
Meu pescoço se ergue.
Meu olhar esfria.
E aquilo que costumava ser um homem
ganha outra densidade.
Eu não caminho.
Eu avanço sem pressa.
Não por arrogância.
Por certeza.
Existe uma diferença
entre quem procura perigo
e quem carrega o perigo
dentro do próprio silêncio.
Eu pertenço à segunda espécie.
Minha postura não pede passagem.
A passagem acontece.
As vozes diminuem.
Os olhos desviam
e depois retornam,
contra a própria vontade.
Há alguma coisa errada
na maneira como eu permaneço imóvel.
Como se meu corpo
fosse apenas a forma humana
de alguma coisa muito maior.
Então a mão se move.
Prata.
E a pedra azul
acende no escuro.
Não como uma joia.
Como um olho.
Um olho que não deveria estar ali.
Um pequeno fragmento de noite
preso ao meu dedo,
pulsando com uma luz fria,
profunda,
quase consciente.
E naquele instante
ninguém sabe dizer
se está olhando para um homem
ou para aquilo que o homem
estava mantendo adormecido.
Eu também já não tenho certeza.
Porque a entidade não fala.
Ela observa.
E quando ela observa,
alguma coisa dentro do ambiente
parece perder a coragem.
O silêncio se torna mais pesado.
O ar, mais estreito.
A distância, mais necessária.
Não existe ameaça em minha boca.
Não preciso dela.
A ameaça está no fato
de que eu poderia permanecer em silêncio
por uma eternidade
e ainda assim
ser compreendido.
Eu não aviso.
Eu não prometo.
Eu não persigo.
Eu espero.
E é isso que assusta.
Predadores correm.
Deuses não precisam.
A entidade apenas permanece.
Imóvel.
Soberana.
Paciente.
Como uma tempestade
que descobriu que não precisa cair
para ser temida.
Então a máscara social finalmente racha.
O homem desaparece
por trás dos próprios olhos.
E alguma coisa olha através deles.
Antiga.
Fria.
Magnética.
Sem misericórdia
para aquilo que tenta diminuí-la.
O couro não é mais uma roupa.
É um selo.
O anel não é mais um adorno.
É um foco.
A pedra azul não é mais uma pedra.
É o olho da coisa que despertou.
E agora eu entendo.
Eu nunca coloquei a jaqueta
para me tornar poderoso.
Eu a coloquei
porque precisava de uma forma
para aquilo que já existia dentro de mim.
A entidade não nasceu naquela noite.
Ela apenas recebeu um corpo.
E agora, quando eu desfilo,
não é um homem que atravessa a escuridão.
É a própria escuridão
aprendendo a caminhar.
Sem pressa.
Sem medo.
Sem remorso.
E quando alguém pergunta
o que existe por trás daquele olhar,
a resposta não vem em palavras.
Vem no silêncio.
Na pedra azul.
No couro fechado.
Na postura imóvel.
Naquela sensação súbita
de que talvez seja melhor
não chegar mais perto.
Porque algumas criaturas
podem ser enfrentadas.
Algumas podem ser vencidas.
Mas existem outras...
que simplesmente não deveriam
ter sido despertadas.
- Carlos Pontes