A Arte da Queda
Há lugares onde o amor não deveria nascer.
Lugares feitos de vidro,
metal,
crachás,
portas que fecham sozinhas
e homens treinados para não demonstrar nada.
Ali,
o silêncio tem protocolo.
O gelo tem uniforme.
As paredes cinzentas
guardam segredos melhor do que qualquer confissão.
E foi justamente ali
que você apareceu.
Não como promessa.
Como ameaça.
Dois animais de terno
dividindo o mesmo território,
cada um convencido
de que o outro deveria recuar.
Nenhum recuou.
Você tinha esse jeito insuportável
de entrar numa sala
como se a sala já fosse sua.
Eu tinha o mesmo defeito.
Você queria estar certo.
Eu também.
Você queria mandar.
Eu não nasci para obedecer.
Então começamos assim:
com olhares que pareciam acusações,
frases cuidadosamente afiadas,
ironias ditas baixo
para ninguém perceber
que, por trás delas,
havia alguma coisa perigosamente viva.
Você me provocava
porque sabia que eu responderia.
Eu respondia
porque sabia que você voltaria.
Era um jogo miserável.
E perfeito.
Enquanto todos ao redor
discutiam metas,
prazos,
hierarquias
e resultados,
nós disputávamos território
com a delicadeza de dois incêndios
tentando ocupar a mesma casa.
Eu odiava
o modo como você não abaixava os olhos.
Você odiava
o fato de eu nunca pedir licença.
E havia alguma coisa obscena
na maneira como o desprezo
começava a parecer desejo.
Não um desejo bonito.
Não desses que chegam
com flores,
jantares
e promessas de futuro.
Era outra coisa.
Mais antiga.
Mais animal.
Aquela vontade absurda
de descobrir
quem quebraria primeiro.
Porque nenhum de nós queria um porto.
Nenhum de nós queria ser salvo.
Nós queríamos a queda.
A porta do avião aberta.
O vento arrancando
qualquer mentira do corpo.
O chão crescendo depressa.
E nós dois
saltando mesmo assim.
Sem paraquedas.
Sem testemunhas.
Sem a covardia
de fingir que aquilo poderia terminar bem.
A aposta nunca foi
quem amaria mais.
Era quem sobreviveria
à colisão.
Você sorria
como quem já conhecia minha ruína.
Eu sorria
porque conhecia a sua.
Talvez tenha sido isso
que nos condenou.
Reconhecer no outro
a mesma doença de poder.
A mesma fome.
A mesma incapacidade
de pertencer sem dominar.
A mesma necessidade
de parecer invencível
mesmo quando alguma coisa,
por dentro,
já estava de joelhos.
Então o ódio perdeu
a disciplina.
O deboche perdeu
a distância.
E o desafio,
esse filho da puta,
começou a nos aproximar.
Cada discussão
deixava uma faísca.
Cada silêncio
dizia mais do que deveria.
Cada vez que você passava por mim
sem dizer nada,
alguma parte de mim
entendia perfeitamente
o que você estava dizendo.
Nós nos tornamos
uma linguagem clandestina.
Um incêndio escondido
dentro de uma empresa
que jamais poderia admitir
que estava queimando.
E talvez seja por isso
que eu ainda não saiba
se quero vencer você
ou ser vencido por você.
Porque, no fundo,
essa distinção deixou de existir.
Você me tem
na palma da mão.
E eu tenho você.
Não como propriedade.
Como espelho.
Como sentença.
Como aquela última fração de segundo
antes do impacto,
quando dois homens percebem
que já estão caindo
e finalmente entendem:
não existe mais disputa.
Não existe vencedor.
Só nós dois,
descendo juntos,
rindo da própria arrogância,
transformando a queda
em monumento,
a ruína
em assinatura,
e o desastre
na obra de arte
mais perfeita
que dois predadores
poderiam construir.
- Carlos Pontes.