A ANATOMIA DA MEDIOCRIDADE
O preço de ser oceano em um mundo que só sabe molhar os pés.
Há uma espécie de cansaço que não nasce do excesso de trabalho, mas da obrigação de conviver com a pequenez de quem confunde profundidade com complicação.
É exaustivo ter um oceano inteiro dentro do peito e perceber que a maioria das pessoas se afoga na primeira pergunta que exige honestidade.
Vivemos na era dos grandes personagens e dos homens minúsculos. Todos querem a imponência de um imperador, mas poucos suportariam o peso de uma coroa. Desejam o prestígio da profundidade, desde que não precisem abandonar o conforto de suas próprias superfícies.
Querem sentar-se à mesa de quem atravessou tempestades, mas não suportam ouvir o barulho dos trovões.
E, quando descobrem que o oceano não foi construído para lhes servir de piscina, chamam a imensidão de arrogância.
Que extraordinária capacidade humana de transformar a própria insuficiência em defeito alheio.
Há quem se aproxime fascinado pela intensidade de um homem, pela firmeza de seus gestos, pela arquitetura de seus silêncios. Admira sua independência, sua inteligência, sua maneira quase insolente de existir sem pedir licença.
Até descobrir que aquela presença exige mais do que contemplação.
Exige caráter.
Exige coragem para permanecer quando a conversa abandona a frivolidade, quando o desejo deixa de ser entretenimento e quando a intimidade começa a cobrar aquilo que nenhuma aparência consegue falsificar: substância.
É nesse momento que os figurantes abandonam o palco.
Não por falta de convite, mas por absoluta incapacidade de sustentar o próprio papel.
E há algo profundamente libertador em assistir à retirada de quem nunca teria condições de acompanhar a travessia.
Durante muito tempo, talvez tenhamos confundido a partida dessas pessoas com alguma espécie de fracasso. Como se cada ausência fosse uma sentença contra nossa maneira de existir. Como se fosse necessário diminuir a própria complexidade para caber na limitada geografia emocional de alguém.
Mas chega um momento em que a lucidez se torna irreversível.
Você percebe que nem toda companhia representa presença. Que existem pessoas capazes de ocupar uma cama inteira sem jamais alcançar um centímetro da sua alma. Que certas conversas são apenas cadáveres de palavras, elegantemente maquiados para parecer alguma coisa.
E que a solidão, diante de determinadas companhias, deixa de ser castigo para se tornar privilégio.
Não se trata de acreditar que somos superiores porque sentimos mais, pensamos mais ou carregamos cicatrizes que os outros desconhecem. A profundidade, afinal, não é uma medalha concedida pelo sofrimento.
Trata-se de reconhecer que existe uma diferença brutal entre quem deseja conhecer um universo e quem pretende apenas colonizá-lo.
Algumas pessoas não querem descobrir quem você é. Querem apenas identificar quais partes suas podem consumir sem comprometer o conforto da própria existência.
Desejam sua luz, mas não querem conhecer o incêndio.
Desejam sua força, mas se incomodam com a independência que a sustenta.
Desejam seu corpo, mas consideram sua alma uma inconveniência administrativa.
E ainda esperam gratidão pela generosidade de oferecerem migalhas àquilo que nunca tiveram coragem de compreender.
Há uma mediocridade particularmente repugnante nessa pretensão de possuir o que não se está disposto a conhecer.
O medíocre não é necessariamente aquele que sabe pouco, ganha pouco ou vive discretamente. Existem pessoas extraordinárias habitando vidas aparentemente comuns.
A mediocridade de que falo é outra.
É a mediocridade moral de quem escolhe permanecer pequeno mesmo diante da possibilidade de crescer. De quem transforma a covardia em prudência, a superficialidade em leveza e a incapacidade de assumir responsabilidades em uma sofisticada defesa da própria liberdade.
É o sujeito que deseja todos os privilégios da intimidade, mas considera qualquer compromisso uma ameaça à sua autonomia.
É aquele que confunde disponibilidade com submissão e interpreta a generosidade alheia como uma autorização permanente para ultrapassar limites.
Contra essa espécie de pobreza, nenhuma fortuna oferece proteção.
E chega a ser divertido observar como certas pessoas reagem quando descobrem que já não possuem acesso irrestrito à nossa existência.
Acostumadas a encontrar portas abertas, interpretam o primeiro limite como uma declaração de guerra.
A ausência de resposta torna-se arrogância. A indisponibilidade transforma-se em frieza. A recusa em participar de seus pequenos espetáculos emocionais passa a ser considerada uma insuportável demonstração de superioridade.
Curioso.
Enquanto você aceitava ser diminuído, era uma pessoa maravilhosa.
Bastou recuperar a própria estatura para se tornar insuportável.
Talvez seja esse o verdadeiro escândalo da soberania: um homem que não precisa ser escolhido torna-se impossível de manipular pela ameaça do abandono.
Ele já conhece o silêncio.
Já atravessou corredores escuros sem a promessa de encontrar alguém esperando do outro lado.
Já recolheu os próprios destroços e descobriu que reconstruir um império exige muito mais disciplina do que conquistar a admiração de uma plateia.
Por isso, não se desespera quando alguém vai embora.
Abre a porta.
Não por indiferença, mas porque aprendeu que a dignidade não deve ser negociada para impedir a partida de quem nunca soube permanecer.
Existe, naturalmente, um preço.
A lucidez não transforma a vida em um banquete interminável de satisfação. Pelo contrário. Ela frequentemente nos condena a um tédio quase aristocrático diante da repetição dos mesmos comportamentos, das mesmas promessas sem musculatura e dos mesmos personagens que confundem mistério com ausência de conteúdo.
Depois de conhecer a profundidade, certas águas simplesmente deixam de interessar.
Não porque sejam indignas de existir.
Mas porque já não oferecem lugar para aquilo que nos tornamos.
E talvez a maturidade consista precisamente em abandonar a necessidade infantil de transformar cada incompatibilidade em uma tragédia.
Nem todo mundo merece uma explicação de vinte páginas. Nem toda ausência exige um funeral. Nem todo encontro precisa se converter em destino.
Há pessoas que são apenas uma nota de rodapé em uma história que insistiram em protagonizar.
Que permaneçam ali.
Quanto à coroa, convém esclarecer uma última coisa: ela não serve para convencer os outros de que somos reis.
Serve para lembrar a nós mesmos do peso das responsabilidades que assumimos sobre a própria vida.
Um homem verdadeiramente soberano não precisa de súditos, tampouco de uma multidão ajoelhada diante de sua grandeza. Precisa apenas da coragem de não se ajoelhar diante daquilo que o diminui.
E, se isso significar atravessar determinados oceanos sozinho, que assim seja.
Prefiro a violência honesta das tempestades à tranquilidade artificial de um aquário.
Afinal, não passei a vida inteira aprendendo a navegar para terminar meus dias implorando por espaço em uma poça.
- Carlos Pontes